CORPOSCOPIO

O projeto Corposcopio é uma instalação cíbrida que integra dois mundos. Por um lado, os participantes são convidados a vivenciar uma atividade muito antiga e presente em diversas culturas do mundo: as danças circulares. A proposta é estimular a experiência da riqueza ritual presente nas danças realizadas em círculo, de mãos dadas. Tais danças têm uma grande capacidade de agregar pessoas em grupos colaborativos. Por outro lado, questões referentes ao cotidiano tecnológico são propostas a partir da utilização de imagens midiatizadas, bancos de dados e remixagens. Nesse sentido, Corposcopio utiliza elementos tais como câmeras de vigilância, tecnologias móveis, aparelhos de telefone celular, estética do banco de dados, projeções e manipulações de imagens em tempo real.

O projeto é composto por três sistemas que se integram na atividade. O primeiro, composto pelos sistemas de captação e manipulação de imagens em tempo real, evoca o mundo dos VJs, da software arte e das tecnologias móveis. Nesse mundo de imagens, todo o grupo dialoga e se integra em remixagens, releituras e fragmentos. O segundo compõe a paisagem sonora, ambiente vibracional que interage com os participantes, em um diálogo co-criatvo. O terceiro mundo é criado pela interação das coreografias e os corpos dinâmicos. Nas versões que realizamos, foi evidente a importância da presença das coreógrafas na interação inicial com os participantes, na maneira de abrir o convite e conduzir as explicações dos passos. Os diálogos vivenciados extrapolam os níveis verbais e alcançam níveis sutis, de olhares, posições dos membros, bem como movimentos respiratórios.

O projeto Corposcopio conjuga três níveis de relações. No primeiro, buscou-se trabalhar com a percepção e o estímulo dos sentidos. A vivência da dança circular é altamente poderosa no sentido de gerar uma percepção do corpo como elemento dinâmico dentro de um corpo maior, o corpo do grupo. A escolha de músicas também teve por objetivo gerar integração entre os participantes. A seleção envolveu: músicas tradicionais brasileiras (cirandas, jongos e cocos): e músicas tradicionais de várias culturas (grega, israelense, nórdicas, escocesas, colombianas, entre outras). A experiência também se reforça a partir da projeção das imagens de corpos dos participantes e da criação de um corpo colagem, composto por fragmentos de corpos e interferências gráficas relacionadas a narrativas pessoais. Todos esses aspectos compõem o nível estético.

O segundo nível corresponde aos atos vivenciados nas possíveis interações. O projeto parte de uma asserção de repudio à espetacularização e assim, o caráter interativo é incentivado e constituinte da proposta. Logo no início da atividade, os participantes são convidados a se aproximarem do espaço integrador e compor a roda. Várias vezes, as pessoas que não aceitam o convite acabam participando num segundo momento, ao perceberem o envolvimento dos demais. Uma outra possibilidade de ação diz respeito à atividade de registrar imagens dos corpos em movimento e enviar por Bluetooth para a mesa de imagens, onde operam os VJs.

O terceiro nível compreende as relações lógicas que os participantes estabelecem com o processo. A proposta tem por objetivo instigar a percepção das múltiplas dimensões nas quais nossos próprios corpos transitam e uma reflexão sobre a atual condição cíbrida em que vivemos. Em outras palavras, o projeto evoca o corpo como um índice nos bancos de dados dos sistemas de vigilâncias e nos sistemas de informação e, ao mesmo tempo, o corpo em movimento e como um elemento ativo na constituição do grupo. Nessa zona de interstício, nessa vivência nômade e cambiante, o projeto se realiza como um discurso de expansão de consciência, pois, por mais paradoxal que pareça, somos, ao mesmo tempo, agentes determinantes nos grupos que compartilhamos e peças duplicadas, corpos sem órgãos nos sistemas informacionais.


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Sobre a autora

Lucia Leao é artista interdisciplinar, doutora em comunicação e semiótica pela PUC-SP e Pós Doutora em Artes pela UNICAMP. Autora de dezenas de artigos sobre arte e novas mídias e dos livros O labirinto da hipermídia: arquitetura e navegação no ciberespaço (Iluminuras, 1999) e A estética do labirinto (Anhembi Morumbi, 2002). Organizou as coletâneas, com artigos internacionais, Interlab: labirintos do pensamento contemporâneo (Iluminuras, 2002), com indicação para o Prêmio Jabuti; Cibercultura 2.0 (Nojosa, 2003); e Derivas: cartografias do ciberespaço (Annablume, 2004). É professora na PUC-SP e no Centro Universitário Senac. Como artista expôs, entre outros lugares, no Isea 2000, Paris; no Museu de Arte Contemporânea de Campinas (MACC); na XV Bienal Internacional de São Paulo; na II Bienal Internacional de Buenos Aires; ArtMedia, Paris; File - SP (2002); Arte Digital Rosario 2003; Cinético Digital, Itaú Cultural (2005), SP; Mostra SESC de Artes (2005), SP e FILE RIO 2006.

Projeto Corposcopio

Lucia Leão
Conceito e direção geral

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Nacho Duran
Desenvolvimento de software, edição de imagens em tempo real (VJ).

Artista multimída, participa dentre outros das seguintes exposições: FILE Festival e Hipersônica 2004 e 2005, FIESP -SP, 2004; Digitofagia, MIS-Museu da Imagem e do Som, SP, 2004; Sonar 2004, Instituto Tomie Othake, SP 2004.

É autor do primeiro videoblog brasileiro www.feitoamouse.com.br/videoblog e desenvolveu o software para edição de imagens em tempo real RANDOX.

Integra diversos coletivos como o TELEKOMANDO com o qual se apresenta freqüentemente em diferentes eventos.

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Rodrigo Gontijo
Edição de imagens em tempo real (VJ).

Rodrigo Gontijo é documentarista, editor de imagens e videoartista.
Realizou os documentários “O Escasso Ar de uma Ilha” vencedor dos prêmios de melhor documentário e melhor vídeo no 13º Gramado Cine Vídeo e “Na Profundeza das Aparências” vencedor de prêmios no Festival de Vídeos Independentes de Santo André e no Festival Sul Americano de Vídeos de Fortaleza. Na área de criação e manipulação de imagens em tempo real , trabalhou como performer/ criador no espetáculo multimídia “Por que nunca me tornei um dançarino” vencedor do APCA/2004 na categoria Pesquisa de Linguagem, na performance “Mate ka Moris” e atualmente na performance "Corposcópio", apresentada no Sesc Consolação.

Como VJ (Visual Jockey) projetou com o coletivo Supergas em diversas festas: Vegas, Heaven, Hotel Unique e encerramento da São Paulo Fashion Week.

No âmbito acadêmico proferiu a oficina “A videoarte e suas relações com a sétima arte” na Casa das Rosas e desenvolveu atividades pedagógicas para a difusão da língua portuguesa em Dili – Timor Leste.

Atualmente trabalha na TV PUC como repórter, roteirista e editor de imagens.


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Fernando Velázquez
Pesquisa tecnológica, e edição de imagens em tempo real (VJ).

Artista multimídia, participa de diversas exposições individuais e coletivas.
Fidalga 05– Paço Municipal de Santo André, SP 2005, FILE – Festival Internacional de Linguagem eletrônica, SP, 2005; Bits Flexíveis - MIS, Museu da Imagem e do som, SP, 2005; 33 Salão de Arte Contemporânea de Santo André, SP, 2005; Public.exe: Public Execution @ MACCSI.ORG, Exit Art, New York, 2004; VI Salão e Simpósio de Arte Digital, Habana, Cuba, 2004 e VI Salão Pirelli de Arte Digital, Caracas, Venezuela, 2003.

Desenvolve peaquisa de mestrado em Moda, Cultura e Arte na Faculdade Senac.

www.blogart.com

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Andrea Leoncini
Projeto coreográfico de danças sagradas circulares

Educadora, Assistente Social (PUC SP) e Psicodramatista (ABPS).

Focalizadora de Danças Circulares tendo participado de cursos com Renata Ramos (SP), Gabrielle Wosien (SP e Polônia), Laura Shanon (SP e Findhorn – Escócia), Peter Vallance (Findhorn), Nanni Kloke (Findhorn), Friedel Kloke (SP); Pablo Scornik e Gwin Peterdi (SC) e vivências com diversos focalizadores brasileiros, desde 2000. Atua como Focalizadora convidada da Formação em Danças Circulares Sagradas realizada por Renata Ramos e na Universidade da Melhor Idade – Unisal – Campus Santa Teresinha - São Paulo, desde 2004. Co-idealizadora da Roda dos Povos que organiza desde 2002 o Encontro Brasileiro de Danças Circulares Sagradas.

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Andrea Soares
Projeto coreográfico de danças circulares brasileiras

Concluinte do Curso de Licenciatura em Artes Cências pela USP, é atriz, dançarina, cantora e arte educadora. Atua, ainda, como pesquisadora em expressão cênica tradicional brasileira. Tem integrado espetáculos teatrais junto aos grupos XPTO, Cia. Ocamorana, Cia. Fábula da Fíbula, entre outros.

 Coordena artisticamente o Grupo Babado de Chita –Dança Música e Pesquisa Cênica Popular, o qual nasceu a partir de seu trabalho como educadora em danças populares brasileiras.

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Dudu Tsuda

Criação musical

Músico, compositor e produtor musical. É bacharel em Comunicação Social habilitação em Multimeios pela PUC-SP, onde é integrante do grupo de pesquisa transdisciplinar Interfaces (orientação da Profa. Dra. Rosangella Leote), cuja participação está atrelada ao seu trabalho de conclusão de graduação sobre a Música de Cena Contemporânea.

Atua profissionalmente como pianista e tecladista em bandas como Freak Plazma, Cérebro Eletrônico e Jumbo Elektro, além de realizar trilhas para moda (marca If no AMNI Hot Spot Outono/Inverno 2005, Verão/Primavera 2005 e Outono/Inverno 2006), cinema (o curta metragem, Trânsito por Dora 2005/16mm, de Paula Faro, em cartaz na Mostra de Curta-Metragens de São Paulo 2005), vídeo (A mãe é ser 2004/Mini-DV de Rosangella Leote, ganhador do 2º Festival de Cine y Video Latino-americano de Buenos Aires), dança (Por que eu nunca me tornei um dançarino(a)? de Adriana Grechi, ganhador prêmio cultura Inglesa 2004, APCA 2005 Pesquisa em Dança, Prêmio SESI de Circulação - Caravanas Teatrais 2005 - Dançante de Patrícia Noronha, ganhador do prêmio Estímulo de Dança 2004 - Butão de Ana Luíza Leão, ganhador do Prêmio Estímulo Novos e Novíssimos Coreógrafos 2004.) e vídeo-performance (Abundância de Rosângela Leote¸ obra integrante da mostra Cinético Digital residente no Itaú Cultural 2005).

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Gisele Fink
Percussão

Paulistana, estudou piano com Anna Maria Batista, do Conservatório Nacional.

Percussão erudita na Escola Municipal de Música; percussão afro-latina no Conservatório Musical Souza Lima. Técnica vocal com Lee Allison, da Berkeley University of California. Na Universidade Livre de Música (Tom Jobin), bateria com Lílian Carmona e Miltinho; teoria musical, harmonia e percepção.

Shows e gravações: Itamar Assumpção, Alzira Espíndola, Luli e Lucina, Klebi Nori, Laura Finockiaro, Willie, Roberta Miranda, Placa Luminosa, Tetê Espíndola, Arícia Mess, Filó Machado, Vânia Bastos, Meninos do Morumbi e Groove de Saia.Espetáculos musicais: “Mulheres de Hollanda”, “Sonho de Uma Noite de Verão”, “Carmem Miranda”, “Oyekê, Raiz e Percussão”.

Shows performáticos humorísticos com Edivaldo Santana (“Vacalhau e Binho”).

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Leonora Fink
Produção

Leonora Fink estudou no IADÊ, é Licenciada em Artes Plásticas pela FAAP, Fundação Armando Álvares Penteado e Designer de Multimídia pela Faculdade Senac.
Participa de diversas exposições coletivas entre as que se destacam o FILE - 2005, "E Por Falar em São Paulo" na Câmara dos Vereadores de São Paulo em 2004, e "Bits Flexíveis" no MIS em SP.
É autora do Projeto Iadê resgate, iniciado em 2004.

www.iadedesign.com.br

 



CORPOSCOPIO

Corposcopio is an experimental collaborative performance that associates circle dance and mobile technologies. The purpose of the interactive performance is to stimulate, simultaneously, the perception of the media in contemporary reality and the collective body emergence. Corposcopio departs from the experience of circle dance, a very ancient group activity, present in different cultures in the world, and aggregates real time image manipulation, software art, VJ, and remix aesthetics.

The transparent, ubiquitous and pervasive presence of computer systems in contemporary spaces is a quotidian fact. Nevertheless, the emergence of digital communities demonstrated the power of human factor in the disruptive use of technologies. Human beings are social beings. Our depart point is to bring an ancient practice, the circle dance, to the scenery of real time image manipulation, ubiquitous computing and mixed reality. The performance itself deals with co-creation development and uncertainty. Each performance has peculiar characteristics hence it is an open system, open to receive the group interaction and participation.

The circle is probably the oldest known dance formation. Ancient circle dances movements are cultural manifestations present in different countries around the world, including Greece, African, Eastern European, Irish Celtic, Catalan, South American, Central American and North American. They have a great power of community integration. The experience stimulates an extended consciousness, a simultaneously perception of the individual body and the collective body. Our hypothesis is that each group will catalyze the emergence of an embodied consciousness of our mediated situation in a different way. As Bernhard Wosien, one of the pioneer researchers on circle dance, has said, dance is a path to totality. In Wosien's view, circle dance has deep ritual characteristics and evokes a tremendous collective enthusiasm. In Corposcopio experience, we observed a great vibration produced by the group movement in harmony with the music. In Brazil, there is a lot of amazing circle dance and one of the most popular is called “ciranda”, whose movements are inspired by sea waves. Ciranda is performed by hundreds of people and some participants fall into trance.

The music has a fundamental role in Corposcopio project. The songs have been chosen by Andrea Leoncine and Andrea Soares, based on their research on folk music and Brazilian music. Dudu Tsuda has created new versions of traditional and folkloric songs, introducing unexpected accords and transformations on form. Tsuda's compositions are open systems that dialogue with enthusiasm and energy with the participants of the circle.

Corposcopio Project comprehends three different systems: the technological, the musical and the interactive arena, that is the place for the circle dance. The technological system is composed by systems of input and output. Two computers receive the images sent by mobile and unmovable devices. Wi-fi cameras, allocated in the dancers' bodies and cell phones transmit the images from the movable point of view. Three fixed cameras, situated around the circle and another one hanged on the ceiling provide the images from the unmoving angle. The camera situated on the ceiling transmits a design that reassembles different and dynamic mandalic patterns. The images received are manipulated in real time using Randox, software developed by Nacho Duran. The projection of images follows a script that has different levels and narrative elements.



Biography of the author



Lucia Leão is an interdisciplinary artist that has been leading researches in art and new technologies since 1989. She obtained her Bachelor of Arts degree in 1984, her MA and Ph D degrees in Communication and Semiotics: Information Technology from PUC - SP Catholic University in 1997 and 2001. Lucia Leão was Postdoctoral Fellow in Arts, in UNICAMP, Campinas, São Paulo, Brazil, from 2001 to 2005.

Leão's research is based on the hypothesis that the ancient studies of myths, labyrinths and rituals could help us to better understand and deeper interact with our contemporary mixed spaces. Her interest in the relationship between labyrinths and cyberspace led her to publish three books on this subject: "The labyrinth of hypermedia: architecture and navigation on cyberspace" (1999), “The labyrinth aesthetics” (2002), and “Interlab labyrinths of contemporary thought”(editor, 2002). She also published another books and collections. Her present research articulates the concept of nomadic wired bodies and ancient circle dances.

Lucia Leão is currently professor at PUC-SP and SENAC University, where she coordinates Cyberculture Research Group. Her articles and projects are available at www.lucialeao.pro.br

 

Corposcopio team

Lucia Leão
Artistic concept/direction

Nacho Duran
Software development and live image editing (VJ)

Rodrigo Gontijo
Live image editing (VJ)

Fernando Velázquez
System development and live image editing (VJ)

Andrea Leoncini
Choreographic project of circular sacred dances

Andrea Soares
Choreographic project of Brazilian circular dances

Dudu Tsuda
Musical creation

Gisele Fink
Percussion

Leonora Fink
Production

Corposcopio quicktime video
quicktime player . 3.1MB